Investment

Gráfico do mês – Spacfobia

by Caron Bastianpillai

Spacfobia

Quando acreditávamos que toda a gente já estava desgastada e que o frenesim tinha chegado ao fim após o primeiro trimestre deste ano, quando a maioria das SPAC começaram a negociar no vermelho, a Trump Media & Technology (fundada por Donald Trump em fevereiro de 2021) entrou numa fusão com a Digital World Acquisition Corp. para se tornar na mais recente “ação meme” a disparar de forma galáctica e a valorizar 1657% desde o anúncio do acordo. E até muito recentemente ainda era a SPAC com o melhor desempenho a nível mundial superando a Iridium, a Lucid Motors, a DraftKings e a QuantumScape (apoiada por VW e Bill Gates) só para referir algumas das quais já terá ouvido falar! Nos dias que correm, basta uma pessoa ser rica, inteligente ou célebre para lançar a sua própria SPAC. Só este ano já foram lançadas 566 SPAC (o que equivale a 63% do capital captado em OPI este ano) e 552 ainda estão à procura de um alvo. Mais importante ainda, o montante de capital captado só este ano nas emissões de SPAC já superou o montante captado durante os últimos 18 anos!

Importa recordar que uma SPAC é uma empresa do tipo “cheque em branco”, um conceito que já existe há 25 anos, mas que se tornou mais popular desde o ano passado, por cortesia da Covid-19. Curiosamente, os cinco principais subscritores de SPAC ao longo dos últimos 5 anos (um negócio muito lucrativo ao qual pode adicionar alavancagem ao estilo usado pela Archegos, tendo em conta a improbabilidade de perder dinheiro) foram o Credit Suisse (o número 1 nos últimos 7 anos até ao presente ano!), o Citigroup, o Goldman Sachs, o Cantor Fitzgerald e o Deutsche Bank. O sucesso do mercado das SPAC reside no facto de que é possível comprar de facto um bilhete da lotaria com uma garantia de devolução do dinheiro caso não esteja satisfeito com a compra (desde que participe na oferta inicial ou o compre ao valor ou abaixo do valor nominal no mercado público) – o reverso da medalha do bilhete “sem risco” é que poderá ter de esperar 2 anos para receber o dinheiro de uma conta fiduciária que vence juros, caso não seja concluído um acordo antes do fim do prazo. E caso a SPAC acabe por celebrar o tão desejado matrimónio com uma entidade que não tem receitas relevantes, estará a comprar um sonho ou a dar um tiro no escuro que poderá correr muito mal.

Não é surpresa que os suspeitos do costume da indústria dos fundos de cobertura tenham estado na linha da frente das OPI de SPAC. tendo em conta o volume significativo de ativos que gerem e a sua capacidade de participarem em PIPE, além dos warrants emitidos ao valor nominal que podem ser negociados após 2 meses. O resultado líquido foi que estes fundos de cobertura conseguiram adocicar significativamente os seus retornos em 2020, com mais pontos percentuais de desempenho. Apesar de um ano menos grandioso para as SPAC, existem muitos fundos ainda especializados na área e a maioria apresenta um desempenho muito bom no acumulado do ano. Muitos dos fundos de cobertura pluriestratégia – que tradicionalmente se afastam deste espaço – viram uma oportunidade no segundo trimestre porque muitas SPAC estavam a negociar abaixo do respetivo preço de emissão criando uma negociação “pull to par” numa base alavancada que se revelou muito rentável. Só no final de setembro, 97% das SPAC em circulação estavam a negociar abaixo do valor nominal.

Aquilo que muitos investidores não compreendem é que os PIPE (Investimentos Privados em Participações Públicas) são a peça mais importante do puzzle porque os patrocinadores precisam de captar 2 a 3 vezes mais dinheiro do que aquilo que recebem na OPI da SPAC para que uma aquisição seja viável. É aí que entram – uma vez mais – as plataformas de fundos de cobertura que têm acesso prévio e obtêm um melhor negócio condimentado com coisas como ações preferenciais. O modelo SPAC está novamente minado, se o financiamento PIPE não se conseguir materializar, provocando um colapso do preço da ação.O céu é o limite quando se entra em OPI na indústria do automóvel elétrico onde todas aspiram a ser a Tesla (a Rivian Automotive apoiada pela Amazon é a mais recente a entrar em bolsa por via de uma OPI ao contrário de uma SPAC e é a terceira maior empresa automóvel no mundo em termos de capitalização de mercado em menos de 4 dias de negociação!). Contudo, a maioria das 15 SPAC de veículos elétricos que entraram na bolsa desde o início de 2020 (à exceção da Polestar e Lucid Motors) viram as suas baterias perder energia dado que não conseguiram cumprir as ambiciosas expectativas. Alguns exemplos incluem a Fisker (a fabricante de um dos primeiros veículos híbridos luxuosos de produção, que já abriu falência uma vez, embora tivesse a tecnologia e o design na altura – a Fisker desenhou o Z8 da BMW para James Bond) enquanto a Nikola Cor. e a Ordstown Motors foram acusadas de “deturpar” os investidores.

Em sentido contrário, está a Rimac Automobili, a fabricante do hiperdesportivo elétrico mais rápido da atualidade, outra empresa de sucesso criada há 12 anos numa garagem por um jovem croata de 19 anos. Se temos sucesso por que motivo quereríamos angariar dinheiro de estranhos que provavelmente irão inflacionar e largar a SPAC logo (ou pouco depois) que seja anunciada uma fusão dita de sentido inverso quando há tantos capitais privados disponíveis, isto para não falar de um potencial adquirente que já esteja cotado na bolsa? A Bugatti Rimac é o mais recente exemplo, uma joint venture entre a Porsche e a Rimac que entrará em bolsa no próximo ano (a Bugatti terá de dizer adeus ao seu legado com 112 anos de motores a gasolina que culminou com o W16 Chiron E de 8 litros e mudar a sede de Molsheim para Zagreb – adieu la France!). O fundador da Rimac (juntamente com Elon Musk) já era um acérrimo crítico das SPAC de veículos elétrico em 2020 e com toda a razão dada a dificuldade em serem rentáveis.

Na tecnologia, os novos intervenientes irão tentar sempre ser mais inovadores do que os incumbentes, mas uma SPAC não é um projeto de ciências com potencial de receitas futuras e, logo, as empresas terão de adquirir uma maior seriedade e maturidade antes de entrarem na bolsa. Não há nenhum motivo para uma SPAC negociar acima do preço de emissão antes do anúncio de qualquer acordo, mas como os participantes no mercado têm estado a jogar ao jogo da cadeira com medo de ficarem de fora é de esperar muitas desilusões no futuro. Além disso, metade das OPI deste ano acima de mil milhões de dólares estão falidas e a negociar no vermelho. Contudo, uma coisa é certa: os patrocinadores e os insiders farão sempre mais dinheiro para eles próprios e os reguladores irão intervir no futuro quando já for demasiado tarde. Até lá, “let the music play on…” (Barry White, 1976).

 

 

 

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